segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Muro de Berlim: Marx também ajudaria a derrubá-lo

por Alfredo Marcolin Peringer*

“Acima de tudo, a revolução será estabelecida por uma constituição democrática... mas a Democracia não terá valor ao proletariado se ela não for imediatamente usada como um meio de tomar medidas diretas contra a propriedade privada e assegurar, então, a subsistência do proletariado.”
Engel, “Os Princípio do Comunismo”, 1847 (precursor do Manifesto Comunista)

Os economistas adeptos da escola econômica austríaca sabem que o socialismo não pode ser levado a sério, se for avaliado pelo seu conteúdo científico, dentro do campo das ciências sociais, visto que nunca conseguiu dar um bom padrão de vida aos pobres, como prometeu. E nunca dará, como demonstra Ludwig Von Mises em diversos trabalhos em que estuda o socialismo. A extinção da propriedade privada, idéia central de Karl Marx, acaba com as atividades do mercado e impede a elaboração do cálculo econômico, tornando desordenada, ineficaz e muito custosa a produção e comercialização dos bens e serviços. A teoria de Mises é ratificada no campo empírico. O comunismo mostrou-se um sistema econômico ineficaz e gerador de pobreza relativa onde foi implantado. Não por coincidência, pois a mesma ineficácia vem sendo demonstrada em todas as democracias com alta participação do Estado (ver os “Índices de Liberdade Econômica” do “Fraser Institute” e “Heritage Foundation”).

Mas, justiça seja feita, não podemos culpar Karl Marx pela forma de comunismo existente no mundo, inclusive pelo ostentado pela Alemanha Oriental até a queda do Murro de Berlim. Não foi essa metodologia idealizada por ele. A de Marx precisava ser apoiada por uma democracia constitucional e, vejam, nessa o “muro” seria irrelevante. O sutil da metodologia de Marx é a possibilidade de os governos investirem contra a propriedade privada dentro de um regime democrático e sob a égide da lei. Trata-se de um meio mais brando de se chegar ao socialismo. Ele mantém a coerção do Estado, mas não a truculência atribuída ao comunismo e que levou à morte cerca de 100 milhões de pessoas. Porém, a metodologia de Marx, semelhante a dos países da América Latina, inclusive Brasil, amparada por um sistema democrático constitucional, não é menos deletéria à vida, à liberdade e ao patrimônio dos seus habitantes.

Mas não podemos culpar Marx também pela forma como os governos vêm crescendo nesses países, principalmente no Brasil, via expropriação da renda do proletariado. A idéia dele era tomar dos ricos para dar aos pobres, bem diferente do que ocorre no Brasil. Aqui o governo toma 54% da renda do trabalhador com ganhos de até dois salários mínimos, na forma de tributos tipo IVA (IPEA, base 2008) e dá aos relativamente mais ricos. São impostos odiados pelo próprio Lênin, sob a alegação de que reduziam o crescimento econômico e “a qualidade de vida dos pobres” (Pravda, 7 de junho de 1913).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Bolsa Família de Lula e a Lei dos Pobres de Elizabeth

  • Alfredo Marcolin Peringer*

    “Não esperar senão duas coisas do Estado: Liberdade e Segurança; e ter bem claro que não se pode pedir mais uma terceira, sob o risco de perder as outras duas.”
    FRÉDÉRIC BASTIAT
Enquanto o presidente Lula chamava de imbecil e de ignorantes os contrários ao aumento dos recursos para o programa “bolsa-família”, a mídia mostrava que a carga tributária brasileira havia alcançado, em 2008, 36,56% do PIB (IBPT). Ainda que se trate do maior índice tributário da nossa história, ele estaria hoje acima de 40% do PIB, caso não se levasse em conta a nova metodologia de cálculo do PIB, feita em 2007 pelo IBGE. No campo empírico, as acusações do presidente ignoram que esse tipo de ajuda já foi testado no passado e fracassou, deixando um rastro de miséria e de infortúnios no caminho. Exemplo clássico desse equívoco foi a “Lei dos Pobres de Elizabeth”, criada por Elizabeth I da Inglaterra, no início do séc. XVI. A rainha, inconformada com o alto número de pobres, velhos e desvalidos no seu reino, quis resolver o problema por decreto, doando-lhes dinheiro. Mas, como o autointeresse prevalece nas ações humanas e a Lei premiava o ócio, os indivíduos começaram a largar os empregos, alguns até a se mutilar, para se enquadrar nos benefícios, formando um exército de aleijados e de desempregados que demandavam cada vez mais verbas públicas para assisti-los.

Analogamente, as bolsas-família e similares no Brasil são uma espécie de “Lei dos Pobres”: estimulam o ócio. Afetam os empregos em dois flancos: a) no da oferta, ao penalizar a atividade econômica, via altos tributos; e b) no da demanda, ao estimular a inércia humana. Ambos os efeitos são deletérios à economia. Já temos a maior carga tributária da América Latina, bem acima da do Uruguai (24%), México (19%). Chile (21%) e Peru (17%). E em vez de reduzi-la, o presidente caminha para aumentá-la ainda mais, com a inclusão de mais verbas para o programa. Tergiversa quando se mostra que a redução tributária, ao estimular a economia, aumenta a própria receita governamental, alegando que houve “perdas de receita” com a queda recente do IPI, quando isso não houve. Ao contrário, a redução do IPI para os automóveis fez as suas vendas igualarem-se às de 2008 (janeiro a maio), “as melhores da história no país”, segundo a ANFAVEA. A dos eletrodomésticos (geladeiras, máquinas de lavar, fogões e tanquinhos) cresceram 30% no período. A iniciativa evitou inclusive maior queda na arrecadação. Só que o incentivo foi tímido. Teria que ser mais amplo. Começar zerando, por exemplo, os tributos da cesta básica (segundo o IBPT, mais de 20% dela são tributos) e ir adiante, incluindo novos bens, produtos e tributos, principalmente federais e estaduais.

Mas a inquietude do presidente também não procede no campo teórico. Se quer realmente ajudar os pobres, deveria seguir os conselhos de Jean-Baptiste Say de que: “el mejor impuesto es siempre el de menor peso y el mejor esquema de finanzas públicas es gastar lo menos posible...”, e que: “es falsa y peligrosa la conclusión de algunos economistas que sostienen que el consumo gubernamental aumenta la riqueza” (Tratado). A redução do peso tributário, que deve ser tentada por atos administrativos, aumentariam os empregos e reduziriam os custos de quem consome e trabalha, beneficiando todos, mas mais os pobres, já que, segundo o IPEA, 54% da renda deles são confiscadas pelo governo via tributos...

terça-feira, 2 de junho de 2009

As crises e o poder corretivo do aumento da demanda por liquidez

Alfredo Marcolin Peringer*

Certa vez perguntaram ao então presidente Jânio Quadros porque ele bebia. Rápido, de maneira irônica, respondeu: “porque é líquido”. Um chiste, claro. Esse fato trouxe-me à mente de que se questionasse um economista porque mantém dinheiro em caixa, por certo ele repetiria, desta vez sério: “porque é liquido”. A liquidez em economia é definida em função da facilidade com que os ativos são convertidos em moeda. “A moeda é o único bem que pode ser empregado instantaneamente na satisfação das necessidades humanas”, diz o economista e filósofo americano Hans-Hermann Hoppe (The Yield from Money Held Reconsidered). Mantê-la em caixa assegura proteção contra as incertezas futuras. Ludwig Von Mises, precursor da escola econômica austríaca, nos ensina: “num sistema em que não houvesse qualquer incerteza a respeito do futuro, ninguém necessitaria manter dinheiro em caixa” (Ação Humana). Esse sistema, porém, não existe a não ser no pensamento keynesiano. Nele, o dinheiro está sempre em circulação, ou seja, está sempre sendo gasto em bens de consumo ou de investimento. Caso contrário, é considerado ocioso e improdutivo na economia e irá reduzir a produção e o consumo futuros.
A falsidade da proposta keynesiana fica transparente quando se analisa as questões econômicas pela Praxeologia, ciência da ação humana, da qual a Economia é a parte mais desenvolvida. Nela os indivíduos são seres humanos (e não inanimados!), em constante interação, tentando aumentar os benefícios e reduzir os custos e as incertezas, guiados por estímulos e desestímulos que surgem constantemente no mercado. As crises dão um bom exemplo de como os indivíduos agem. Nessas ocasiões as incertezas crescem, instigando os agentes econômicos a buscarem refúgio na liquidez, via aumento da demanda por moeda. Essa ação, benéfica, acaba: a) majorando o valor da moeda; b) aumentando a proteção contra as incertezas; e c) reduzindo os preços dos bens não-monetários. São resultados essenciais na dissipação rápida da crise. Logo, não há nada mais irracional do que as recomendações keynesianas de se compensar, nessas ocasiões, o aumento da demanda por liquidez com novas emissões de moeda e gastos governamentais. Primeiro, trata-se de uma compensação impossível: são moedas que derivam de ações praxeológicas distintas, no tempo e espaço. Segundo, é uma medida desnecessária: o próprio mercado reordena o sistema de preços. Terceiro, é uma ação deletéria: as novas emissões vão impedir a valorização da moeda, anular a proteção contra a alta da incerteza e evitar a queda dos preços não-monetários, acabando por dificultar e prolongar o ajuste da crise, com custos econômicos e sociais enormes.
Keynes foi irracional até em seu conhecido brocardo: “não adianta levar um cavalo à fonte, se ele não tem sede”, criado em defesa dos gastos governamentais. Ele também é falso: faz uma analogia imprópria da liquidez da água com a liquidez da moeda. Seria mais apropriado se tivesse substituído o cavalo por um gambá: evitaria ao menos outra confusão, a da liquidez monetária com a da etílica.

(www.professorperinger.blogspot.com.br)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Schumpeter vs Keynes: duas escolhas irreconciliáveis

Alfredo Marcolin Peringer*

Os economistas Joseph A. Schumpeter e John Maynard Keynes têm em comum apenas o fato de terem nascido no mesmo ano (1883), de resto, diferem em praticamente tudo. Schumpeter, mulherengo, aspirava ao título de melhor amante de Viena. Keynes, desde cedo, teve outras preferências amorosas. “As primeiras relações românticas e sexuais de Keynes foram com homens”, diz o New York Times (11/05/1986). Já Charles Hession, no “A Personal Biography of the Man Who Revolutionized Capitalism”, considera-o andrógino, com traços masculinos e femininos, “presentes em todas as suas obras, do Tratado à sua Teoria Geral”, diz. Outros preferem ironizar o lado ‘hetero’ de Keynes, sugerindo que o seu casamento com a bailarina russa, Lydia Lopokova, “pode ter sido uma união, para todos os efeitos, feliz... todavia sem filhos” (Wikipedia, free encyclopedia).
Mas as preferências sexuais de Keynes (ou de Schumpeter!) não são relevantes em si, nem para explicar as suas grandes divergências econômicas. As divergências econômicas estão relacionadas às suas obras e mestres. Schumpeter formou-se na Universidade de Viena e foi aluno de Eugen Böhm-Bawerk, precursor da escola econômica austríaca, escola em que a disciplina é analisada dentro do campo social, pelas ações humanas. Schumpeter seguiu, ainda que de maneira incompleta, a teoria austríaca, dando ênfase às ações inovadoras dos empresários no mercado, criadoras de novos bens e novas tecnologias, num descarte dos bens e processos antigos, denominado por ele de “destruição criadora”, essenciais ao desenvolvimento econômico sustentado (Teoria do Desenvolvimento Econômico).
Keynes, formado em matemática na nobre Universidade de Cambridge, estudou economia com Alfred Marshall, numa época em que predominava a idéia de que só tinha valor científico o que podia ser observado e experimentado. Como a economia, nesses aspectos, era a prima pobre das ciências, foi induzido pelo mestre a dar mais “cientificidade” à disciplina, usando cálculos matemáticos sofisticados, ignorando a impropriedade desse método ao estudo das ciências sociais. Ludwig Von Mises, no “Ação Humana”, satiriza que: “todos os autores que pretendem estabelecer uma base epistemológica das ciências da ação humana, segundo padrão das ciências naturais, erram lamentavelmente”. De fato, Keynes, confundindo as metodologias das duas ciências, não conseguiu visualizar por completo as reais causas econômicas da grande depressão: a) o excesso de moeda e crédito, como iniciador; b) o governo, como causador; e c) a queda dos investimentos e da respectiva poupança, como resultados (e, não, do consumo!). Culminou num erro descomunal: recomendar que o próprio algoz, o governo, equilibrasse a economia. Doug French cita um discurso na American Economic Association (1948), pronunciado por Schumpeter, no qual fala:: “Keynes está cego por sua ideologia da estagnação: a de que é necessário o estímulo governamental para eliminar o desemprego. O coração do sistema capitalista tem um dinamismo sem fim, bem o oposto do que defende” (Schumpeter vs Keynes).
Schumpeter e Keynes, duas vidas e duas obras irreconciliáveis. Desditosamente, Keynes venceu a contenda econômica na época, apoiado por interesses burocráticos que exigiam mais participação do governo na economia. Mas foi uma vitória de Pirro: só deixou perdedores sociais e econômicos no mundo, principalmente naqueles que acreditaram nele.
*Economista