quinta-feira, 28 de agosto de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

A alta do preço dos alimentos, a inflação, os juros e a moeda.

por Alfredo Marcolin Peringer*

O presidente Lula, preocupado com a alta do preço dos alimentos, afirmou que o “melhor remédio para combater a inflação é aumentar a produção". As donas de casa que costumam ir aos supermercados gostam de ouvir isso. O povo brasileiro em geral tem ojeriza à inflação e gostaria de evitar as variações constantes dos preços dos alimentos, uns mais, outros menos. Mas os economistas sabem que essas variações não são inflacionárias: trata-se de “aumento dos preços relativos”. Milton Friedman, no seu livro “Liberdade de Escolher”, nos ensina que “a inflação é um problema eminentemente monetário”. Não existe, assim, a tal inflação de custos, apenas a inflação de demanda. No caso de o Banco Central do Brasil (BC) não aumentar a quantidade de moeda, a alta dos preços de uns alimentos tem que ser compensada com a queda de outros ou de suas quantidades.
Outra falácia muito difundida entre os economistas do governo — que o vice-presidente José Alencar vem tentando corrigir! — refere-se ao uso das variações das taxas de juros como meio de controlar a inflação. Friedman ajuda a reparar esse erro com certo humor, ao fazer uma analogia jocosa de Demetrius, personagem shakespeariano de “A Midsummer Night’s Dream”, com o FED, Banco Central americano. Diz que “Demetrius evita Helena, que o ama, para perseguir Hermia, que ama outro”. O FED, analogamente, “desvia o seu coração do controle das quantidades de moeda (que seria o seu verdadeiro amor), para as taxas de juros, sobre as quais não tem nenhum controle”, e, seria de acrescentar-se, tampouco afinidade.
Infelizmente, no Brasil as relações do BC com o Tesouro Nacional são diferentes daquelas que o FED mantém com o Tesouro Americano. Aqui o BC é refém de um governo gastador, que não se contenta com uma receita tributária na casa de 37% do PIB, obrigando-o a administrar uma dívida em títulos de cerca de R$ 1,26 trilhão. Mas são relações promíscuas. Não é papel de um banco central clássico ajudar na gastança do governo. Aliás, segundo Friedman, nem precisariam existir bancos centrais, apenas um mecanismo que aumentasse paulatinamente em 4% ao ano a quantidade de moeda em poder do público e dos depósitos nos bancos comerciais, pois considera-os uma fonte de custos e de desestabilização econômica. Aliás, o nosso BC é um exemplo vivo desse mau desempenho. Mantemos o recorde de ser o País a ter, pelo período mais longo de tempo, as mais elevadas taxas inflacionárias no mundo.
A preocupação do Presidente Lula, ainda que louvável pela boa fé, não deve ser dirigida ao setor produtivo, mas ao BC, sob o seu comando, exigindo que essa Instituição reduza outra produção: a de moeda. Isso porque esse é o único remédio eficaz e duradouro para evitar o recrudescimento da alta geral e contínua dos preços.

*Economista

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A inflação é a pior desgraça para os salários?

por Alfredo Marcolin Peringer* (Zero Hora, 29 de maio de 2008 N° 15616)

A mensagem do presidente Lula de que "a inflação é a pior desgraça para o povo que vive de salário" parece ser sincera. Afinal, foi por iniciativa do presidente que o Banco Central do Brasil (Bacen) é hoje uma instituição autônoma, ao menos operacionalmente. Sem falar que a sua diretoria encontra-se blindada contra os ataques dos "desenvolvimentistas", segmento, dentro do seu próprio governo e partido, que pressiona por mais liquidez monetária, imaginando, erroneamente, que vá "impulsionar o crescimento econômico". Talvez o presidente já tenha ouvido falar em Friedrich von Hayek, um dos precursores da escola econômica austríaca. Hayek já mostrou, categoricamente, que o excesso de liquidez leva às crises econômicas. No seu último livro, Fatal Conceit, ironizando a facção desenvolvimentista afirma que "a moeda é... entre todas as coisas, a menos entendida e - talvez com o sexo - o objeto das maiores e das mais irracionais fantasias; e, como o sexo, ela simultaneamente fascina, intriga e repele". Sabemos que Lula presenciou no final da década de 80 o desajuste econômico causado pelo desentendimento monetário em nosso país. Viu o povo rebelar-se contra os supermercados e produtores de gado, instigados por um governo que imaginava que eram eles que causavam a alta dos preços, ignorando que a causa estava dentro do Bacen.

Temos que reconhecer que o entendimento monetário evoluiu bastante nesse meio tempo em nosso país. Mas não a ponto de se vir a isolar o Bacen e o governo das críticas economicamente racionais. Entre elas, a de que vem mantendo: a) um crescimento monetário ao redor de 20% ao ano, nível que pressiona a inflação para dois dígitos; b) altas taxas de juros, com conseqüências adversas para a sociedade; c) um endividamento que alcança 47% do PIB, "contra 20% dos países com o mesmo nível de risco", adverte a diretora da Standard & Poors, Lisa Schineller (a mesma que nos concedeu recentemente o "grau de investimento"). Não se pode defender o Bacen, acima de tudo, pela falta de criatividade na condução da política monetária. Resume-se em inchar os saldos de moeda pelo ingresso de divisas estrangeiras e desinchá-los pela venda de títulos públicos, deixando, nesse processo, um rastro de desequilíbrios (só no primeiro trimestre de 2008, os gastos com os juros da dívida pública alcançaram R$ 37,6 bilhões e devem chegar a R$ 150 bilhões no ano).

Mas o presidente precisa reconhecer que a carga tributária também é uma desgraça para os salários do povo. E a política monetária sem brilho do Bacen não fica atrás. Pressiona a carga tributária para cima, aumenta os custos financeiros empresariais e desvia o crédito do setor privado para o público, fatores que levam à queda da produção, da renda e dos empregos, fatal para os pobres.
*Economista


*Economista

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Ok Keynesianos, onde estais vós?

Há poucos dias recebi um artigo do economista polonês Mateusz Machaj, com o título shakespeareano “Oh Keynesian, Where Art Thou?” referindo-se, ironicamente, à incapacidade de os economistas keynesianos explicarem as causas e a cura das crises mundiais. Machaj é seguidor da escola econômica austríaca, cujos expoentes são Ludwig Von Mises, Murray Rothbard e Henry Hazlitt. A Escola destaca-se por adotar um enfoque econômico filosófico nos seus ensinamentos, com princípios permanentes, válidos no tempo e espaço. E Hazlitt foi o primeiro deles a mostrar, de forma ampla e apodítica, no seu “The Failure of the ‘New Economics’ - An Analysis of the Keynesian Fallacies”, as falsidades dos ensinamentos keynesianos, como a de que “não se precisava mais preocupar com as crises econômicas: o governo já saberia como curá-las”. Bem ao contrário, o autor demonstra que além de o governo não ser a cura para os males econômicos, ele é a própria doença.

Os economistas da Escola Austríaca, ainda que considerem Keynes uma pessoa carismática e inteligente, mostram um pensador falacioso no campo teórico. De fato, sua Teoria Geral é cheia de falhas axiomáticas, de termos vagos e imprecisos, legítima mixórdia conceitual, pobre de conteúdo científico. Em seus ensaios biográficos sobre Marshall e Edgeworth Keynes condena o método matemático na economia, mas a sua teoria geral usa e abusa desse método. E de “forma fraudulenta”, complementa Hazlitt, dando ênfase que as suas equações da demanda e da oferta agregada “confundem e misturam fatos reais com expectativas”. Nela os juros são um “prêmio pela ausência deliberada da liquidez”, conceito no mínimo impreciso, já que todo sistema de trocas monetárias é uma renúncia à liquidez. As falácias se agigantam quando tenta, com o conceito dos juros, validar dois neologismos econômicos: a) o da “preferência por liquidez” (percentual da renda que os indivíduos vão manter na forma de dinheiro, em função dos juros); e o da b) “propensão a consumir” (percentual da renda que vão gastar em bens e serviços). A idéia era explicar outro neologismo, o da demanda efetiva “insuficiente”, responsável, segundo ele, pelos desequilíbrios entre oferta e demanda que derivariam da “superprodução de bens e serviços”, da “preferência pela liquidez” ou da baixa “propensão a consumir”, fenômenos que julgava, erradamente, serem as causas das crises econômicas.

No curso dessas diatribes econômicas revogou a Lei de Say (a “oferta gera a sua própria demanda”), teoria que demonstra, categoricamente, que a Oferta sempre tenderá a se igualar à Demanda, desviando-se de maneira sistemática apenas por interferência governamental. No mercado, o excesso de produção de uma mercadoria é localizado e se compensa com a menor produção de outra, levando, inclusive, a de maior produção a cair de preço. O fato é que mesmo o “entesouramento especulativo de moeda”, hipótese aventada por ele, não causa desequilíbrio entre oferta e demanda: a redução da quantidade de moeda aumenta o poder de compra do dinheiro.

Mas será que o keynesianismo desapareceu como apregoa Machaj? Infelizmente, não! No Brasil criou-se, inclusive, uma associação com o fim precípuo de difundir seus princípios, atitude no mínimo anacrônica: trata-se de uma teoria hoje relegada à categoria de ideologia nas melhores escolas do mundo, justamente pela falta de embasamento científico.