sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A estrutura de capital austríaca e a macroeconomia: uma simbiose impossível

por Alfredo Marcolin Peringer*

http://www.professorperinger.blogspot.com/

Considero um erro metodológico, e um prejuízo ao avanço do estudo da ciência econômica, a união dos princípios da mainstream economics (ME) com os da escola econômica austríaca (EEA), praticado por alguns dos seus defensores, dentro do campo da teoria de capital1. Ignoram a dimensão do disparate das suas pretensões, ao colocar no mesmo prisma conceitos totalmente distintos do ponto de vista da ME e da EEA. A diferença entre as escolas começa com o próprio conceito de equilíbrio econômico, mas se estendem ao do tempo, do capital, do investimento, da poupança, das taxas de juros e da renda. Os ‘austríacos’, a começar, não trabalham com situações de equilíbrio, mas com a economia em constante desequilíbrio. Ora são as quebras de safras, ora o aumento da demanda por um determinado produto, ora uma nova mercadoria que surge no mercado, entre tantos outros desbalanceamentos econômicos. Os empreendedores mais atentos, que conseguem perceber os desequilíbrios antes dos demais, entram comprando, vendendo, produzindo ou investindo. São ações movidas pelo lucro, mas que ajustam os desequilíbrios. Aliás, quanto mais inventiva for uma economia, mais desequilíbrios ela tenderá a gerar e, consequentemente, mais ganhos tenderá a propiciar aos empreendedores mais hábeis, sem contar que a maior parte dos desajustes estão relacionados à estrutura de capital.

Não é para menos que a estrutura de capital, devido à sua complexidade, é o local onde surgem as divergências mais acentuadas entre a ME e a EEA. Enquanto o tempo é uma categoria econômica para os austríacos, é negligenciado pelos defensores da mainstream economics, dando, por isso, uma interpretação unidimensional ao capital. Encobrem os seus aspectos multidimensionais, como a dimensão da sua estrutura, formada por vários estágios de produção, responsáveis pela fabricação dos bens intermediários (prédios, máquinas, equipamentos, matérias prima, insumos, entre outros) que vão integrar mais adiante a fabricação dos bens de consumo finais. Quanto mais distante estiver cada estágio de produção do consumo, dado pelo tempo que leva da fabricação do bem intermediário até a venda dos bens de consumo final, maior será o juro implícito do negócio. Como a ME não trabalha com uma estrutura de capital multidimensional, desconsidera as funções específicas do tempo real, dos custos, dos juros, dos lucros e riscos integrados em cada etapa de produção. Se conhecessem todo esse intricado processo, talvez desistissem de somar o capital e de apresentá-lo de forma agregada, na tentativa de trabalhar com um conceito econômico — diga-se de passagem! — burro: a média.

Outra consideração importante dentro da teoria de capital austríaca é a impossibilidade de separação do conceito de investimento do de poupança, considerada coisas distintas pela ME: seus lideres desconhecem que a essência de ambos é a mesma. O Capital, no seu longo trajeto da fabricação dos bens intermediários até os bens de consumo finais, gera renda, principalmente salários, juros e lucros. Era isso que Jean Baptiste-Say queria nos dizer na sua célebre frase: “é a oferta que gera a demanda”. A poupança é a renda gerada e não gasta em bens de consumo. Contrário ao que a ME prega, a poupança não fica ociosa. Ela se mantém dentro do sistema econômico, investida na estrutura de produção intermediária (prédios, máquinas, matérias-primas, insumos e na própria mão-de-obra dos diversos estágios de produção, assim como na compra de bens de consumo duráveis) ou conservada como um poder de compra temporário.

Ainda que possa haver boa intenção dos “macroeconomistas austríacos”, as tentativas de agregação desse complexo sistema não têm nexo verdadeiramente econômico. São elucubrações tão irreais quanto os “faz de conta” dos socialistas e estatistas na elaboração do cálculo econômico fora do mercado, criticada por Ludwig Von Mises, com uma analogia dos jogos de guerra, praticados por uma criança (ME), e uma verdadeira guerra, enfrentada em campo de batalha por um soldado (EEA). A agregação, da mesma forma, fornece resultados utópicos, irreais, sem validade teórica pelos mandamentos da EEA. Logo, não se trata de “purismo acadêmico”, como alegam os macroeconomistas austríacos, mas uma batalha contra algo vazio ou com custos maiores do que benefícios.

Friedrich Von Hayek, a propósito, o maior mentor positivista da Teoria do Capital Austríaca e dos ciclos econômicos, faz um alerta no Prefácio do seu “La Teoria Pura del Capital”, ao comentar que o intento de sistematização dentro da teoria de capital abre lacunas que deixam o conteúdo praticamente inútil para as análises complicadas. E os erros se acentuam nos estudos mais avançados dos ciclos econômicos. As agregações escondem que os excessos monetários ou creditícios, que levam aos ‘booms’, afetam os diversos estágios de produção de maneira heterogênea. Nos ‘busts’, então, quando a atividade econômica para se recuperar precisa, antes, do desmanche dos investimentos e empregos malfeitos, a agregação não se torna apenas nula e inútil, mas fortemente nociva, abrindo o espaço para as incursões da ME, que acredita ser possível apagar o fogo usando mais gasolina (mais excessos monetários).

Ao passarmos, então, do estudo positivista da teoria do capital para o praxeológico, o erro das agregações e das diagramações sofisticadas se agiganta. Ludwig Von Mises, no seu “A Ação Humana”, comenta que: “A Economia não é, como os ignorantes positivistas repetem a toda a hora, atrasada pela falta de mensuração quantitativa. Ela não é ‘quantitativa’ porque não trabalha com dados ou variáveis constantes”. Elas obscurecem a análise das ações empreendedoras dos indivíduos, feitas geralmente na busca da redução dos custos, dos prazos, da inovação tecnológica, dos novos meios de se fazer as escolhas, da melhora da qualidade dos bens de capital e do produto final. A inutilidade dos resultados das agregações dentro da teoria de capital e dos ciclos econômicos torna-se saliente quando se analisa passo a passo as ações dos indivíduos. O maior custo das agregações, como se depreende, recai no aprendizado econômico. Os fundamentos praxeológicos deram força científica ao estudo da economia e das demais ciências sociais. Qualquer empecilho que venha a enfraquecer ou tolher a análise do emaranhado social e econômico dentro do campo da ação humana e da sua categoria universal, no tempo e no espaço, deve ser suprimido sob qualquer pretexto.

(1) Roger W. Garrisson, “Time and Money: The Macroeconomics of Capital Structure” (Routledge, Londres, 2001), traduzido e simplificado em “A MACROECONOMIA DA ESTRUTURA DE CAPITAL”, por Ubiratan Jorge Iorio (Fev/2010)

Um comentário:

vanderlicamorim disse...

É lamentável que muitos, a grande mioria dos economistas, e incluindo aí certos austríacos, não refletem para o fato que capital é um conceito que não tem contrapartida com o universo físico. Ou seja, que em si não existe. Só existe na mente do homem quando este planeja objetivando o lucro e em um ambiente de mercado. Não conseguem compreender que o capital é tão somente um instrumento do cálculo economico e que em nenhum momento tem existencia própria e independente. Eles não conseguem compreender esta sutileza e passam a perseguir um conceito de capital que as vezes se confundem com bens de capital, quando não em algo completamente incompreensível expresso por graficos e fórmulas tão ao gosto dos positivistas.