sexta-feira, 25 de abril de 2008

Ok Keynesianos, onde estais vós?

Há poucos dias recebi um artigo do economista polonês Mateusz Machaj, com o título shakespeareano “Oh Keynesian, Where Art Thou?” referindo-se, ironicamente, à incapacidade de os economistas keynesianos explicarem as causas e a cura das crises mundiais. Machaj é seguidor da escola econômica austríaca, cujos expoentes são Ludwig Von Mises, Murray Rothbard e Henry Hazlitt. A Escola destaca-se por adotar um enfoque econômico filosófico nos seus ensinamentos, com princípios permanentes, válidos no tempo e espaço. E Hazlitt foi o primeiro deles a mostrar, de forma ampla e apodítica, no seu “The Failure of the ‘New Economics’ - An Analysis of the Keynesian Fallacies”, as falsidades dos ensinamentos keynesianos, como a de que “não se precisava mais preocupar com as crises econômicas: o governo já saberia como curá-las”. Bem ao contrário, o autor demonstra que além de o governo não ser a cura para os males econômicos, ele é a própria doença.

Os economistas da Escola Austríaca, ainda que considerem Keynes uma pessoa carismática e inteligente, mostram um pensador falacioso no campo teórico. De fato, sua Teoria Geral é cheia de falhas axiomáticas, de termos vagos e imprecisos, legítima mixórdia conceitual, pobre de conteúdo científico. Em seus ensaios biográficos sobre Marshall e Edgeworth Keynes condena o método matemático na economia, mas a sua teoria geral usa e abusa desse método. E de “forma fraudulenta”, complementa Hazlitt, dando ênfase que as suas equações da demanda e da oferta agregada “confundem e misturam fatos reais com expectativas”. Nela os juros são um “prêmio pela ausência deliberada da liquidez”, conceito no mínimo impreciso, já que todo sistema de trocas monetárias é uma renúncia à liquidez. As falácias se agigantam quando tenta, com o conceito dos juros, validar dois neologismos econômicos: a) o da “preferência por liquidez” (percentual da renda que os indivíduos vão manter na forma de dinheiro, em função dos juros); e o da b) “propensão a consumir” (percentual da renda que vão gastar em bens e serviços). A idéia era explicar outro neologismo, o da demanda efetiva “insuficiente”, responsável, segundo ele, pelos desequilíbrios entre oferta e demanda que derivariam da “superprodução de bens e serviços”, da “preferência pela liquidez” ou da baixa “propensão a consumir”, fenômenos que julgava, erradamente, serem as causas das crises econômicas.

No curso dessas diatribes econômicas revogou a Lei de Say (a “oferta gera a sua própria demanda”), teoria que demonstra, categoricamente, que a Oferta sempre tenderá a se igualar à Demanda, desviando-se de maneira sistemática apenas por interferência governamental. No mercado, o excesso de produção de uma mercadoria é localizado e se compensa com a menor produção de outra, levando, inclusive, a de maior produção a cair de preço. O fato é que mesmo o “entesouramento especulativo de moeda”, hipótese aventada por ele, não causa desequilíbrio entre oferta e demanda: a redução da quantidade de moeda aumenta o poder de compra do dinheiro.

Mas será que o keynesianismo desapareceu como apregoa Machaj? Infelizmente, não! No Brasil criou-se, inclusive, uma associação com o fim precípuo de difundir seus princípios, atitude no mínimo anacrônica: trata-se de uma teoria hoje relegada à categoria de ideologia nas melhores escolas do mundo, justamente pela falta de embasamento científico.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O gene egoísta e o meu pé de laranja-lima

A fama do biólogo evolucionista Richard Dawkins começou com seu livro O Gene Egoísta, no qual defende a tese de que o gene é a verdadeira e única unidade da evolução e da seleção natural. "São os genes que, em proveito próprio, manipulam os organismos sobre os quais navegam", diz. Ainda que os organismos sejam entidades mortais, sustenta que o gene é imortal: vem pulando de um corpo para outro ao longo de incontáveis gerações, a partir dos seus ancestrais peixes, minhocas, protozoários, bactérias, só para citar alguns.

Há muitos exemplos empíricos que se encaixam na tese genética do autor. No último fim de semana, por exemplo, o meu filho, tentando libertar em meu quintal um velho pé de laranja-lima de um parasito, comentou: "Que praga burra. Continua sugando a seiva da árvore, minguando seus frutos e pondo em risco a vida não só da planta, como a sua". Não entendeu nada quando respondi que não era ela, mas os genes instalados em seu DNA que a levavam a agir de forma míope e estúpida.

Mas Dawkins não se contentou em ficar no campo das ciências naturais. Foi mais adiante, criando a teoria memética, escrita em alusão à genética, só que aplicada ao campo das ciências humanas. No lugar do "gene", criou a figura do "meme", segmento de informação (idéia, pensamento, teoria, hábito, prática etc.) que é passado verbalmente ou por ação ao longo dos tempos em sociedade. Inobstante o autor não haja dado suficiente informação sobre a característica do "meme", onde e como ele evolui, pode-se aceitar, como um dos seus hospedeiros, o setor estatal, devido à grande metamorfose e ao seu gigantismo dos últimos tempos. E, de fato, o gasto público, agregado mais representativo desse segmento, pulou de pouco mais de 5% do PIB há menos de cem anos, para perto de 40% nos dias de hoje no Brasil.

Dawkins vem recebendo muitas críticas a sua teoria memética. As mais sólidas provêm das obras de Karl Popper, um dos gênios da filosofia da ciência. Entre elas a de que: a) as observações empíricas jamais podem ser consideradas verdades absolutas ou definitivas; b) a tese memética é refutada pelo método próprio das ciências humanas, a praxiologia, desenvolvido por Ludwig von Mises em sua magistral obra Ação Humana.

Mas as desavenças metodológicas precisam ser deixadas de lado: o problema estatal exige uma solução imediata. Afinal, tanto a tese do "meme egoísta" de Dawkins, quanto a do axioma da ação, fundamentado nas leis praxiológicas, mostram, claramente, a existência de uma lei de ferro que leva, com o tempo, ao inchaço da máquina pública. Ainda mais porque, caso não haja um tratamento de choque, a capacidade produtiva da economia brasileira, semelhantemente à do meu pé de laranja-lima, continuará definhando, perdendo o vigor, os frutos e a capacidade de se manter viva.

ALFREDO MARCOLIN PERINGER Economista
Zero Hora, 28 de fevereiro de 2008 N° 15524

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O FÓRUM "SOCIAL" MUNDIAL E A CIÊNCIA ECONÔMICA

O prêmio Nobel de Física de 1997 recolheu-se humilde ao reconhecer no seu discurso de premiação da Academia Sueca que as ciências naturais, a exemplo da Física e da Química, não têm respostas mais verdadeiras a dar ao mundo do que as ciências sociais, como a Economia.

O reconhecimento desse fato, porém, não o torna humilde, mas realista. A Ciência Econômica ainda é o meio mais eficaz que temos para lidar com os problemas sociais e melhorar o padrão de vida da população. Como o homem age de maneira coerente, motivado pelo desejo de suprir seus desconfortos, pode-se prever as ações futuras das pessoas com relativa segurança, a partir de estímulos existentes ou criados no mercado. O principal estímulo à ação do Homem em sociedade ainda é o financeiro —para o "espanto" dos ingênuos— mas os não-financeiros, a exemplo dos prêmios honoríficos e outras láureas, também têm influência, embora em dadas circunstâncias.

Não se pode, porém, confundir o método utilizado pela Economia, com os métodos das ciências naturais. O objeto da Economia é o Homem e não um amontoado de moléculas, átomos e partículas. Os resultados se dão pela interação humana e, não, por experimentos com materiais. Ademais, a ação humana é individual. Não há ação coletiva, pois, como se pode facilmente deduzir, não há um ser humano coletivo, a não ser no mundo utópico dos socialistas.

Os socialistas acreditam ser possível a ação coletiva (os humoristas também, mas para fazer graça! — alguns por serem utópicos, mesmo). Mas nem o bom nem o mau humor conseguem esconder que o sistema socialista é antagônico aos princípios que regem a ação humana e que fracassou no mundo porque não dá condições às pessoas de realizarem o cálculo econômico. E, na ausência dele, a ação do homem é substituída pela coação do estado; a miséria toma o lugar da riqueza; a desavença, o desajuste e a exclusão sociais, substitui a solidariedade e a fraternidade prometidas. Tudo como resultado da queda da produção, da renda e dos empregos — única certeza que o sistema nos dá!

A Economia é diferente, também, das ciências naturais. Ela não permite que os burocratas coloquem num papel como as pessoas devem agir e manobre-as de acordo com o imaginado, como faz um engenheiro ao criar uma obra, montando-a e acompanhando-a até finalizar seu projeto, obtendo um resultado praticamente igual ao planejado. Infelizmente, para desgosto dos burocratas socialistas, isso não é possível. Por isso, as ações dos indivíduos no mercado têm sido comparadas aos movimentos dos astros no universo. A analogia diz respeito à irredutibilidade do curso deles ou à impossibilidade de controlar suas trajetórias, como gostariam os astrônomos. Mas, sabendo disso, o Homem procurou nortear sua vida na terra em harmonia com esses movimentos, como fez, por exemplo, ao criar os mapas de navegação, que tantos benefícios trouxeram à humanidade.

Os neo-socialistas precisam aprender essa lição. Em vez de criar regras que entravam a ação humana e que redundam em custos sociais e econômicos, deveriam adaptar-se aos postulados que explicam a ação dos indivíduos no mercado e extrair, com isso, maiores benefícios para todos. Não adianta rebelar-se contra o modo de agir das pessoas. O que precisam é adotar a política correta, como fez, consciente ou inconscientemente, o governo da cidade de São Paulo diante do caótico trânsito daquela capital. Permitiu que seus taxistas fossem remunerados também pelo tempo que levam para conduzir os passageiros e não, como é comum em outras capitais, pelos quilômetros rodados. Como os ganhos são praticamente os mesmos, a decisão transformou esses profissionais em pessoas mais gentis, sempre prontas a dar passagem aos outros motoristas, atitude racional, dentro das categorias da ação humana, pois não precisam mais andar em alta velocidade para largar um passageiro, pegar outro e fazer dinheiro. No final, todo trânsito acabou sendo beneficiado, pois, como Fredrich Hayek nos ensinou, o aprendizado, "feito por imitação”, acaba contagiando...

Mas os exemplos de como usar os fatores determinantes da ação humana para melhorar o desempenho social e econômico são infindáveis, tanto em casos particulares, quanto genéricos: a) um vendedor, cujo salário seja estabelecido por comissão sobre as vendas, tenderá a ter mais empenho em vender do que outro que tenha um salário fixo; b) um administrador de condomínio, cujo salário seja fixado em função das despesas do edifício, tenderá a gerar despesas mais altas aos condôminos do que outro cujas despesas sejam feitas de forma diferente; c) os altos impostos, ao reduzir os ganhos dos indivíduos ou a lhes causar prejuízos, desestimula a continuidade dos investimentos e provoca queda nos níveis de renda e de empregos; d) o combate ao tóxico, por ignorar as categorias da ação humana, aprofunda os custos sociais e econômicos do vício (mortes, doenças, gastos públicos, privilégios dos contrabandistas, entre outros), sem reduzir substancialmente o seu uso.

A verdade científica mostra que se os neo-socialistas, reunidos no denominado Fórum "Social" Mundial, quiserem, verdadeiramente, melhorar o meio social em que vivem têm que trabalhar com os fatores que influenciam a ação humana e não contra eles. Criar fóruns para discutir meios de vida diferentes desses é "ladrar contra a Lua"... e ficaria nisso, não fossem pelos custos sociais e econômicos que geram à população.

Alfredo Marcolin Peringer
Consultor Econômico
POA, 22/01/2001

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Lições de Gramsci e Lênin


A esquerda brasileira mistura recomendações de Gramsci e de Lenin nos seus métodos de ação. De Gramsci, ela adquiriu a técnica de firmar posições estratégicas em setores econômicos e sociais relevantes. Gramsci considerava-as uma espécie de catapulta para chegar ao socialismo pacificamente. E, desde a posse do presidente Lula, o núcleo mais à esquerda do PT vem trabalhando duro para lotar com gente sua, ou influenciar indiretamente, cargos e pessoas importantes de sindicatos, estatais, ONGs, partidos políticos, universidades, meios de comunicação, Igreja e outros que ajudem de alguma forma a alcançar o socialismo. Irrelevante se, segundo estudo da cientista política Maria Celina dAraújo, a maioria dos indicados para os cargos públicos não tenham preparo técnico para desempenhá-los. Ou que o orçamento de 2008 contemple 56.348 novas contratações pelo governo federal (29 mil derivadas de cargos a serem criados), que vão elevar os gastos de pessoal da União de R$ 118,1 bilhões em 2007 para R$ 130,8 bilhões em 2008. Os fins justificam os meios.

De Lenin, tomou a retórica discursiva, condensada em sua famosa máxima: "Primeiro, confundam o vocabulário". O presidente Lula, considerado por alguns como de "aguçado faro político", valendo-se do baixo nível de informação dos brasileiros, é useiro e vezeiro na prática leninista. Há poucos dias, diante de um grande público, disse que "pobre não paga CPMF". Levaria a maior vaia se falasse num país bem informado. Mas no Brasil teve mais aplausos do que vaias. Noutra ocasião, querendo Hugo Chávez no Mercosul, sustentou: "A Venezuela é uma democracia"...

Mas os métodos leninistas não são privilégio do presidente Lula. Eles também vêm sendo usados pelo governo gaúcho. O plano que previa aumento do ICMS foi chamado por seus criadores de "Plano de Recuperação". Mas é um termo desvirtuado economicamente. Há um farto material teórico, apoiado por inúmeros exemplos empíricos, que mostra, categoricamente, que no atual nível da carga tributária um aumento do ICMS vai desequilibrar ainda mais no médio prazo as finanças do Estado e não "recuperá-las". Confundindo ainda mais as palavras e o conceito econômico, os criadores do "pacote" argumentaram que: "O Estado... confere à população gaúcha um dos melhores padrões de vida do país". A argumentação - falsa em se tratando de governo! - foi para concluir que se precisava do aumento dos impostos para "a sociedade gaúcha não perder qualidade de vida e competitividade". São considerações que ruborizariam o próprio Lenin: esse autor queria acabar com os impostos indiretos, tipo ICMS, justamente para acelerar o desenvolvimento e, acreditem, "dar mais qualidade de vida aos pobres" (Pravda, 7 de junho de 1913).

ALFREDO MARCOLIN PERINGER Economista

Zero Hora, 27 de novembro de 2007 N° 15431