quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A virtude do egoísmo

Alfredo Marcolin Peringer*

Muita gente por certo se indignou com pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Vox Populi: 85% dos entrevistados acreditam que os políticos agem em benefício próprio. O resultado é um retrato fiel do grau de insatisfação dos brasileiros com seus representantes. Mas quem estuda Economia sabe que o auto-interesse é um comportamento essencialmente humano. Adam Smith, há dois séculos, alertou que “não é da benevolência do padeiro ou do açougueiro que se deve esperar o pão e a carne de cada dia, mas do seu auto-interesse”. Ayn Rand foi mais incisiva. Em seu A Virtude do Egoísmo A verdadeira ética do homem: o egoísmo racional, expõe que o egoísmo racional é benéfico econômica e socialmente. Conclui, inclusive, que “sem ele é impossível a sobrevivência do gênero humano na Terra”.Mas foi Ludwig Von Mises quem demonstrou, categoricamente, no seu compêndio Ação Humana (1949), que esse “egoísmo” não é um atributo do cargo ou da função dos indivíduos, mas das suas ações, prevalecendo tanto na iniciativa privada quanto na pública. Só que, na privada, Smith cita uma “mão invisível” que uniria o interesse individual ao coletivo. Na pública, Hans-Hermann Hoppe, filósofo seguidor de Mises, diz que há conflitos. “Motivadas pelo interesse próprio, pela desutilidade do trabalho e com o poder de taxar, as ações dos servidores governamentais tendem, invariavelmente, para a maximização dos gastos e minimização da produção”, concluindo que: “Quanto mais dinheiro gastarem e quanto menos horas trabalharem, mais satisfarão os seus interesses” (The Future of Liberalism).Hoppe também acusa o poder governamental, em colóquio do Mont Pelerin Society (Barcelona, 1997), pelo mais de um século de declínio do liberalismo (e agigantamento do Estado!). Fundado nas leis praxiológicas e na prevalência do interesse próprio nas ações humanas, vem demonstrando que há uma incompatibilidade dos regimes democráticos com os da propriedade privada dos meios de produção, base da economia de mercado: o interesse próprio, benéfico no mercado, torna-se extremamente deletério no setor público. De fato, o tamanho do Estado, medido pela carga tributária, não alcançava dois dígitos percentuais do PIB no mundo há cerca de um século (7% do PIB no Brasil em 1920, segundo o Ipea).
A pesquisa Vox Populi revelou uma situação que precisa ser equacionada, antes que alcance dimensões totalitárias. Milton Friedman sugere regras constitucionais claras como freio ao crescimento desbaratador do Estado. Mas são inconsistentes. Ele subestima a força do interesse próprio no setor público: as regras são alteradas sob os mais estapafúrdios pretextos. As soluções consistentes têm que contar com um sistema semelhante ao privado: que unam os dois interesses, o individual e o coletivo.
*Economista

terça-feira, 29 de julho de 2008

A alta do preço dos alimentos, a inflação, os juros e a moeda.

por Alfredo Marcolin Peringer*

O presidente Lula, preocupado com a alta do preço dos alimentos, afirmou que o “melhor remédio para combater a inflação é aumentar a produção". As donas de casa que costumam ir aos supermercados gostam de ouvir isso. O povo brasileiro em geral tem ojeriza à inflação e gostaria de evitar as variações constantes dos preços dos alimentos, uns mais, outros menos. Mas os economistas sabem que essas variações não são inflacionárias: trata-se de “aumento dos preços relativos”. Milton Friedman, no seu livro “Liberdade de Escolher”, nos ensina que “a inflação é um problema eminentemente monetário”. Não existe, assim, a tal inflação de custos, apenas a inflação de demanda. No caso de o Banco Central do Brasil (BC) não aumentar a quantidade de moeda, a alta dos preços de uns alimentos tem que ser compensada com a queda de outros ou de suas quantidades.
Outra falácia muito difundida entre os economistas do governo — que o vice-presidente José Alencar vem tentando corrigir! — refere-se ao uso das variações das taxas de juros como meio de controlar a inflação. Friedman ajuda a reparar esse erro com certo humor, ao fazer uma analogia jocosa de Demetrius, personagem shakespeariano de “A Midsummer Night’s Dream”, com o FED, Banco Central americano. Diz que “Demetrius evita Helena, que o ama, para perseguir Hermia, que ama outro”. O FED, analogamente, “desvia o seu coração do controle das quantidades de moeda (que seria o seu verdadeiro amor), para as taxas de juros, sobre as quais não tem nenhum controle”, e, seria de acrescentar-se, tampouco afinidade.
Infelizmente, no Brasil as relações do BC com o Tesouro Nacional são diferentes daquelas que o FED mantém com o Tesouro Americano. Aqui o BC é refém de um governo gastador, que não se contenta com uma receita tributária na casa de 37% do PIB, obrigando-o a administrar uma dívida em títulos de cerca de R$ 1,26 trilhão. Mas são relações promíscuas. Não é papel de um banco central clássico ajudar na gastança do governo. Aliás, segundo Friedman, nem precisariam existir bancos centrais, apenas um mecanismo que aumentasse paulatinamente em 4% ao ano a quantidade de moeda em poder do público e dos depósitos nos bancos comerciais, pois considera-os uma fonte de custos e de desestabilização econômica. Aliás, o nosso BC é um exemplo vivo desse mau desempenho. Mantemos o recorde de ser o País a ter, pelo período mais longo de tempo, as mais elevadas taxas inflacionárias no mundo.
A preocupação do Presidente Lula, ainda que louvável pela boa fé, não deve ser dirigida ao setor produtivo, mas ao BC, sob o seu comando, exigindo que essa Instituição reduza outra produção: a de moeda. Isso porque esse é o único remédio eficaz e duradouro para evitar o recrudescimento da alta geral e contínua dos preços.

*Economista

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A inflação é a pior desgraça para os salários?

por Alfredo Marcolin Peringer* (Zero Hora, 29 de maio de 2008 N° 15616)

A mensagem do presidente Lula de que "a inflação é a pior desgraça para o povo que vive de salário" parece ser sincera. Afinal, foi por iniciativa do presidente que o Banco Central do Brasil (Bacen) é hoje uma instituição autônoma, ao menos operacionalmente. Sem falar que a sua diretoria encontra-se blindada contra os ataques dos "desenvolvimentistas", segmento, dentro do seu próprio governo e partido, que pressiona por mais liquidez monetária, imaginando, erroneamente, que vá "impulsionar o crescimento econômico". Talvez o presidente já tenha ouvido falar em Friedrich von Hayek, um dos precursores da escola econômica austríaca. Hayek já mostrou, categoricamente, que o excesso de liquidez leva às crises econômicas. No seu último livro, Fatal Conceit, ironizando a facção desenvolvimentista afirma que "a moeda é... entre todas as coisas, a menos entendida e - talvez com o sexo - o objeto das maiores e das mais irracionais fantasias; e, como o sexo, ela simultaneamente fascina, intriga e repele". Sabemos que Lula presenciou no final da década de 80 o desajuste econômico causado pelo desentendimento monetário em nosso país. Viu o povo rebelar-se contra os supermercados e produtores de gado, instigados por um governo que imaginava que eram eles que causavam a alta dos preços, ignorando que a causa estava dentro do Bacen.

Temos que reconhecer que o entendimento monetário evoluiu bastante nesse meio tempo em nosso país. Mas não a ponto de se vir a isolar o Bacen e o governo das críticas economicamente racionais. Entre elas, a de que vem mantendo: a) um crescimento monetário ao redor de 20% ao ano, nível que pressiona a inflação para dois dígitos; b) altas taxas de juros, com conseqüências adversas para a sociedade; c) um endividamento que alcança 47% do PIB, "contra 20% dos países com o mesmo nível de risco", adverte a diretora da Standard & Poors, Lisa Schineller (a mesma que nos concedeu recentemente o "grau de investimento"). Não se pode defender o Bacen, acima de tudo, pela falta de criatividade na condução da política monetária. Resume-se em inchar os saldos de moeda pelo ingresso de divisas estrangeiras e desinchá-los pela venda de títulos públicos, deixando, nesse processo, um rastro de desequilíbrios (só no primeiro trimestre de 2008, os gastos com os juros da dívida pública alcançaram R$ 37,6 bilhões e devem chegar a R$ 150 bilhões no ano).

Mas o presidente precisa reconhecer que a carga tributária também é uma desgraça para os salários do povo. E a política monetária sem brilho do Bacen não fica atrás. Pressiona a carga tributária para cima, aumenta os custos financeiros empresariais e desvia o crédito do setor privado para o público, fatores que levam à queda da produção, da renda e dos empregos, fatal para os pobres.
*Economista


*Economista